Baixar flapes no durante a corrida de decolagem considerado incorreto

by Zoë Keliher
zoe.keliher@ntsb.gov
National Transportation Safety Board
Durante a investigação de um acidente de um Air Tractor, encontrei um procedimento de decolagem que vem sendo usado como padrão por pilotos agrícolas. Nunca tendo ouvido falar deste procedimento, revi os arquivos de acidentes similares e descobri que este procedimento pode ter sido fator contribuinte em diversos outros acidentes.

O primeiro acidente a instigar minhas investigações sobre estes procedimentos de decolagem ocorreu enquanto o piloto tentava decolar em seu Air Tractor 502A de uma pista de grama de 600 metros, com árvores localizadas em seu final. Durante a corrida de decolagem, a medida em que a velocidade aumentava, o piloto estendeu seus flapes logo antes de erguer o nariz da aeronave, assumindo uma atitude cabrada. O avião subiu cerca de 5 metros e colidiu com as árvores ao final da pista. Quando interrogado sobre o porque de ter baixado flapes no meio da corrida, ele respondeu que seu procedimento padrão de decolagem consistia em iniciá-la com os flapes recolhidos, mantendo esta configuração até o momento de cabrar para sair do solo. Ao cabrar, ele iniciaria a subida puxando o manche para trás e simultaneamente baixando os flapes para tentar obter uma corrida de decolagem mais curta.

Além de uma possível pane mecânica do flape, se o piloto tivesse baixado os flapes antes de iniciar a corrida, este acidente poderia ter sido evitado. Uma revisão do Manual de Vôo do Air Tractor mostrou que o procedimento de decolagem curta consiste em “baixar flapes para a posição de 10 graus (primeira marca)”, embora não especifique em que momento o flape deva ser abaixado. Depois de ler este procedimento ambíguo, decidi entrevistar diversos pilotos agrícolas. Surpreendentemente, muitos dos pilotos com quem falei usavam este procedimento de decolagem. O raciocínio por trás dele é baseado na crença de que mantendo os flapes recolhidos no início da corrida de decolagem, se reduz o arrasto e conseqüentemente reduz a corrida de decolagem da aeronave. Suspeitando desta alegada redução na distância de decolagem, conversei com um representante da Air Tractor que confirmou que este procedimento de decolagem não apenas é impróprio, mas também a teoria por trás dele é falsa; o arrasto criado pelo flape nesta fase da decolagem é mínimo e não causa alteração mensurável da distância de decolagem.

Como a maioria dos Air Tractor são aeronaves de categoria restrita, o fabricante não tem dados de teste computando o arrasto dos flapes durante a decolagem. Depois de analisar vários textos de aerodinâmica, e consultar vários engenheiros aeronáuticos, descobri que o arrasto dos flapes durante a corrida de decolagem não influi significativamente o desempenho da decolagem. Ao invés, os seguintes parâmetros é que tem drástica influência na distância de decolagem:

1.) Fatores tridimensionais – tipo específico do perfil da asa, arrasto total da aeronave (dependente do desenho da asa), formato da aeronave, torção das asas, número de Reynolds (N. do T.: este número teórico, adimensional, informa o quão turbulento o fluxo aerodinâmico será.) , etc.

2.) Efeito-solo – durante a corrida de decolagem, a aerodinâmica da aeronave é alterada de certa forma pelo efeito-solo.

3.) Características em vôo – aceleração da aeronave (mudanças na razão de aceleração), velocidade, ângulo de ataque, vento e assim por diante; cálculos significativos do arrasto seriam problemáticos sem estes dados específicos.

4.) Condições da pista – coeficiente de arrasto da pista, condição da superfície, pressão dos pneus, condição da banda de rodagem dos pneus, etc.

Sem estas informações, um piloto não é capaz de prever com precisão diferença na distância de decolagem quando usando o procedimento descrito ao invés de baixar os flapes previamente como recomenda o fabricante. Parece que, ao invés de tentar este procedimento potencialmente inseguro com base em uma teoria não testada quanto ao desempenho da aeronave, seria melhor que o piloto se preocupasse em ter certeza de que os pneus estão corretamente calibrados, que os rolamentos de roda estão adequadamente lubrificados, que a aceleração máxima está sendo obtida e as outras condições mencionadas acima são favoráveis.

Em resumo, durante as decolagens, flapes devem ser baixados antes do início da corrida. Especificamente, deixar para baixá-los durante a corrida não é uma prática segura e tem o potencial para causar um acidente, destruindo uma aeronave e ferindo seu piloto.

ACIDENTES

LAX03LA180— o avião colidiu com árvores ao decolar de um aeródromo privado. A pista era de grama com cerca de 600 metros e com árvores localizada ao seu final. O piloto informou que seu procedimento padrão de decolagem consistia em iniciar a corrida de decolagem com os flapes recolhidos, continuando nesta configuração até a rotação, quando ele iniciaria a subida inicial cabrando o manche e simultaneamente baixando os flapes. Seguindo seu procedimento padrão, o piloto aplicou toda a potência e a aeronave iniciou a rolagem pela pista de grama. Quando a velocidade aumentou, ele comandou os flapes e cabrou a aeronave. O avião saiu do solo, mas os flapes não baixaram. A aeronave subiu até cerca de 5 metros e colidiu com galhos de árvores, posteriormente atingindo o solo. Durante um exame da cabine, um inspetor da Federal Aviation Administration observou que o fusível do motor elétrico do flape estava na posição “desligado”. O procedimento inadequado de pré-vôo e pré-decolagem do piloto, ao não baixar os flapes, resultou na capacidade reduzida de subida da aeronave quando esta sofreu uma pane no sistema dos flapes.

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LAX04LA275—A aeronave colidiu com vegetação alta e o solo durante a subida inicial após decolar de uma pista não pavimentada para um vôo de aplicação agrícola. Antes da decolagem, o piloto deixou de baixar os flapes para a posição de 10 graus que ele tinha utilizado nos vôos anteriores naquela pista. Durante a corrida de decolagem, o piloto se deu conta que ele não tinha aplicado os flapes como estava acostumado a usar, e tentou estende-los. Apesar de suas tentativas, os flapes permaneceram recolhidos por razões não determinadas. Com cerca de seis metros de pista restando, o piloto tentou alijar a carga. No entanto, ele não conseguiu acionar a alavanca de alijamento. A aeronave saiu da pista mas não conseguiu ganhar altura suficiente para livrar a cultura de milho medindo entre 1,5 a 1,8 metro de altura. Depois de atingir o milho, a aeronave estolou, atingiu o solo e pilonou três vezes antes de parar com as rodas para cima.
Causa Provável: o procedimento inadequado de pré-vôo/pré-decolagem do piloto, ao não baixar os flapes, causando uma redução da capacidade de subida ao sofrer uma pane no sistema do flape.

FTW92DRD03—O piloto estava tentando decolar de uma pista agrícola carregado com defensivos, quando não atingiu a velocidade de decolagem. A temperatura era de cerca de 32 graus quando o acidente ocorreu. Ele tentou baixar os flapes para a posição de decolagem antes de atingir a área ao final da pista. O avião colidiu com árvores e parou próximo a uma estrada vizinha. O piloto declarou que os flapes não baixaram durante a corrida de decolagem. O investigador da FAA examinou os flapes e verificou que eles funcionavam.
Causa Provável: A falha do piloto em baixar os flapes para a posição de decolagem.

Nota do Editor: a opinião desta autora não reflete necessariamente a opinião de AgAir Update. Deve ser notado que baixar os flapes antes da decolagem pode ser uma prática mais segura, como se vê nos relatórios de acidentes acima. No entanto, isto não significa que baixar os flapes durante uma corrida de decolagem não vá reduzir a distância de decolagem. Qual a sua opinião ou experiência? Escreva para aau@agairupdate.com.